Horas antes do resultado das eleições, Cruzeiro segue com dívidas inacabáveis, punições, sem credibilidade e nada de paz

Raposa elege logo mais o seu novo presidente, mas perspectiva é sombria na instituição; treinamentos da equipe são novamente adiados

Assim como todo o elenco, Fábio realiza testes para Covid-19 na Toca 2 antes de voltar aos treinos. Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro

Belo Horizonte, 20/05/2020 – Portal Futebol Diário

Marco Túlio Souto

A queda da Raposa para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no ano passado aliada à falta de transparência da antiga diretoria custaram extremamente caro e causa até horas antes do resultado da primeira eleição no clube pós-rebaixamento problemas inacabáveis. A semana considerada uma das mais decisivas do Cruzeiro em 2020 – devido às eleições para presidente e mesa diretora do Conselho Deliberativo marcadas para esta quinta-feira – iniciou-se como terminou 2019 e como começou 2020: caótica. Primeiro, o clube revelou dados do estudo realizado pela Kroll, que investigou a saúde financeira da instituição desde o começo do mandato da gestão Wagner Pires de Sá, a qual respira por aparelhos. Depois, o Conselho Gestor do Cruzeiro, presidido por Saulo Fróes, foi pego de surpresa após o clube não ter conseguido quitar até a última segunda-feira uma dívida no valor de R$ 5 milhões, referente ao ex-volante do time celeste, Denílson, contratado em 2016. Neste caso, o Cruzeiro, ainda nas gestões de Gilvan de Pinho Tavares e Wagner Pires, não desembolsou o valor ao Al-Wahda, dos Emirados Árabes – e, por isso, foi punido de forma irreversível pela FIFA com menos seis pontos antes mesmo do início da Série B neste ano.

Mas as terríveis consequências não param de chegar na Toca da Raposa 2 e o novo presidente que assumir o clube a partir de 1º de junho, quando ocorrerá a posse oficial, precisará descascar muitos ‘abacaxis’ ao lado dos seus vices. Além do dinheiro que precisa ser depositado na conta do Al-Wahda com novo prazo em até cinco meses para evitar um eventual novo rebaixamento, o Cruzeiro tem até o fim deste mês de maio outro importante compromisso financeiro que precisa ser pago de maneira urgente, além de uma nova ação na Justiça acionada nesta quarta-feira. Outra dívida em atraso é em relação ao ex-atacante cruzeirense, Willian Bigode, junto ao Zorya Luhansk, da Ucrânia, que tem direito de receber do clube celeste R$ 11 milhões até o dia 29 de maio pela transferência do jogador na década passada à Toca 2. Caso não consiga pagar essa dívida, o Cruzeiro vai sofrer uma nova punição da FIFA de menos seis pontos na Série B e pode até mesmo ser rebaixado da competição em caso de reincidência.

Ao todo, até 31 de maio, são R$ 26 milhões à FIFA que precisam ser depositados por um clube atualmente sem nenhuma credibilidade no mercado financeiro para obter empréstimos, por exemplo, uma vez que o Cruzeiro também ainda está em débito pelo zagueiro equatoriano Kunty Caicedo. Apesar da pandemia da Covid-19, a máxima entidade do esporte não perdoa a Raposa e exige, assim como fez em relação ao arquirrival, Atlético, no dia 27 de abril, o pagamento dessas dívidas. Mas algo que aumenta ainda mais a dificuldade cruzeirense com o novo Coronavírus em cena é a não realização de partidas aliada à falta de arrecadação, além das dificuldades de negociar dois jovens ativos do elenco, casos do zagueiro Cacá e do meio-campista Maurício. Não bastasse ao clube inúmeros compromissos com a FIFA que, no total, supera R$ 80 milhões a serem pagos até a metade de 2021, ano do centenário do Cruzeiro, o ex- técnico celeste e bicampeão da Copa do Brasil em 2017 e 2018 também cobra do clube agora R$ 5,3 milhões pelo não cumprimento do acordo da rescisão contratual, em agosto de 2019. No caso de Mano Menezes, a Raposa precisaria ter pago o treinador R$ 1,9 milhão, no entanto, o mesmo entrou com duas ações nas Varas do Trabalho de Belo Horizonte devido ao atraso e não pagamento solicitando um novo valor.

Eleições

Até a noite desta quinta-feira, o Cruzeiro e seu torcedor vão conhecer os novos administradores da instituição, que irão substituir o Conselho Gestor. Esta vai ser a primeira de duas eleições na Raposa em 2020, já que no mês de outubro um novo pleito será realizado para definir o presidente celeste nos próximos três anos a partir de 2021. Ou seja, quem vencer nesta quinta, comandará o Cruzeiro até o fim deste ano e o candidato que ganhar a segunda eleição, podendo haver uma reeleição, tomará posse em janeiro do ano que vem. Tal situação acontece devido à desistência da antiga gestão de Wagner Pires de Sá, Hermínio Lemos (esses também agora ex-conselheiros do Cruzeiro) e Ronaldo Granata, os quais pediram para sair do comando em dezembro passado restando ainda um ano de presidência e semanas após o primeiro rebaixamento cruzeirense à segunda divisão do futebol nacional. Curiosamente, um dos vices de Wagner Pires, Ronaldo Granata é um dos dois candidatos à presidência do Cruzeiro nesta eleição e disputará o pleito com Sérgio Santos Rodrigues.

Além da eleição para presidente, o Cruzeiro também vai eleger o novo presidente do Conselho Deliberativo para a vaga ocupada recentemente por Zezé Perrela e, posteriormente, José Dalai Rocha, esse atual presidente interino da Raposa até o anúncio do novo comandante. Para este cargo, são quatro chapas em disputa e apenas uma vai ser escolhida pela maioria dos conselheiros. Concorrem ao conselho da Raposa: Luiz Carlos Rodrigues Filho (Chapa Independente), Paulo César Pedrosa (Chapa Somos Todos Cruzeiro), Paulo Roberto Sifuentes Costa (Chapa Renovação Azul) e Giovanni Marcos Baroni (Chapa Transparência e Reconstrução). Para evitar aglomerações, os conselheiros serão divididos pelas duas letras iniciais e a votação ocorrerá entre 9h a 16h, no Ginásio do Cruzeiro no Barro Preto, em BH.

Investigações e Treinamentos

Na última segunda-feira, o Cruzeiro também recebeu da empresa Kroll o relatório da investigação depois de análise de 214 gigabytes de arquivos que identificou uma série de irregularidades da gestão de Wagner Pires de Sá. No mesmo dia, o clube, através do seu Conselho Gestor, entregou todo o estudo ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que vai investigar a fundo o relatório para punir, caso for preciso, os respectivos responsáveis. Segundo parte do relatório, foram utilizados pela antiga diretoria R$ 39,2 milhões em pagamentos irregulares ou suspeitos entre dezembro de 2017 a dezembro de 2019. Além disso, o estudo feito pela Kroll aponta um crescimento avassalador em despesas da Raposa durante o mandato de Wagner Pires, saltando de R$ 770 milhões a R$ 1,1 bilhão – desses gastos, o uso de cartões de créditos corporativos foi frequente chegando a R$ 80 mil no total e a dívida atual do Cruzeiro ultrapassa os R$ 800 milhões. Nos próximos dias e com o novo presidente celeste no comando, novidades sobre a investigação do MPMG e mais dados do relatório devem surgir.

Enderson Moreira durante apresentação na Raposa por videoconferência. Foto: Cruzeiro

Por outro lado, nos gramados, o Cruzeiro tenta com o seu novo técnico, Enderson Moreira, se planejar para a sequência da atual temporada quando for possível a realização de partidas oficiais no Brasil e apesar também de uma tumultuada situação econômica e política do seu clube. Nesta quinta-feira, além das eleições presidenciais no clube, o elenco cruzeirense regressaria oficialmente às atividades, na Toca da Raposa 2 – porém, após a realização de testes para Covid-19 em todos os jogadores, membros da comissão técnica e funcionários em geral, alguns profissionais apresentaram resultados inconclusivos para o novo Coronavírus. Esta seria a primeira atividade de Enderson Moreira frente à sua nova equipe, o qual foi anunciado pelo clube ainda em março passado para substituir o demitido Adílson Batista. Antes disso, Enderson teve apenas reuniões por videoconferência com os atletas devido ao Coronavírus e, agora, vive a expectativa de trabalhar presencialmente com o grupo. Apesar do adiamento, uma das novidades do time celeste para a sequência da temporada é o lateral esquerdo Patrick Brey, que estava emprestado à Ferroviária e reintegra ao plantel da Raposa para disputar posição com João Lucas e Rafael Santos – como novidade, Brey também se junta ao meia Régis, contratado recentemente pelo time celeste. Quando o futebol retornar em Minas Gerais, o próximo adversário do Cruzeiro deve ser a URT, em BH, pela 10ª rodada do Campeonato Mineiro.