Flamengo consegue virada heroica sobre o River Plate e conquista o bicampeonato da Libertadores após 38 anos

Depois de sofrimento, ansiedade e pressão, rubro-negro carioca supera o então campeão River e torna-se o novo dono da taça mais cobiçada do Continente Sul-Americano

Estrela de Gabigol brilha mais uma vez e atacante garante triunfo e título histórico.
Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

Do Portal Futebol Diário, em Belo Horizonte

Marco Túlio Souto

O futebol é sempre imprevisível, até quando uma grande equipe vive um momento adverso no jogo e precisa do imprevisível para conquistar o êxito. Enfrentar o atual campeão da Libertadores era tarefa difícil ao Flamengo, que voltava a disputar à sua segunda final de Libertadores na história após 38 anos diante de um clube afeito nessa década a decisões e dono de quatro títulos do máximo torneio da América do Sul. Foi assim que aconteceu para o novo campeão da Libertadores, o qual sofreu, suou, lutou até o fim e venceu de maneira emocionante. Na entrada dos dois times em campo antes da partida, o principal goleador do Flamengo tocou com um beijo na cobiçada taça da Libertadores e deixou no ar tal suposição para o desfecho final. De virada, o Flamengo venceu o River Plate, pelo placar de 2 a 1, e conquista o bicampeonato da Libertadores que não vinha desde 1981 depois uma campanha de excelência, sobretudo na fase de mata-mata. O título em Lima, no Peru, premia o Fla também com a vaga para o Mundial de Clubes, em dezembro deste ano, no Catar, além da vaga garantida para a próxima edição da Libertadores no ano que vem e também para o novo Mundial de Clubes, em 2021. Além disso, o Flamengo pode também neste fim de semana garantir o título do Campeonato Brasileiro em caso de tropeço do Palmeiras neste domingo, contra o Grêmio.

A grande decisão da Libertadores em jogo único tinha duelos interessantes dentro de campo, na aérea técnica e nas arquibancadas. Com um sistema ofensivo avassalador na atual temporada e na Libertadores dono do melhor ataque e com o maior artilheiro, o Flamengo apostou em seu quarteto ofensivo formado por Éverton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol para surpreender o River. Do outro lado, o time argentino também possuía um grande ataque que tinha a promessa de dificultar bastante a defesa do Flamengo composto por um outro quarteto, esse formado por Nacho Fernández, De La Cruz, Matías Suárez e Borré. A disputa entre os comandantes era mais um enorme atrativo do duelo em Lima. Por um lado, Marcelo Gallardo, treinador argentino do River Plate e há cinco anos no clube, buscava o seu terceiro título da Libertadores. Já na outra parte fora das quatro linhas, um europeu tinha a missão de quebrar um longo jejum do Flamengo e, de quebra, conquistar a sua primeira Libertadores na carreira.

Se dentro de campo e na aérea técnica os ingredientes eram apetitosos, nas arquibancadas, Flamengo e River Plate deram um espetáculo com as suas cores vermelha, preta e branca. Torcedores de vários locais do mundo, com histórias incríveis e que foram de todos os jeitos possíveis para viverem intensamente de perto o evento futebolístico mais aguardado na América do Sul em 2019. Os brasileiros cantaram, os argentinos também e a bola rolou para valer já nos primeiros movimentos no Estádio Monumental de Lima. Com muita disputa pela posse de bola no meio-campo, Flamengo e River Plate travavam desde o início forte marcação e luta por espaços mínimos para buscarem impor às suas maiores armas ofensivas: a velocidade, o drible e a conclusão efetiva. A primeira finalização da primeira etapa e única do Flamengo nos primeiros 45 minutos saiu dos pés do belo-horizontino Bruno Henrique, que arriscou tentativa de longa distância, mas a bola foi para fora e sem perigo ao goleiro Armani, do River Plate e da Seleção da Argentina. Depois disso, o River começava a mostrar a que veio e não dava chances ao Flamengo, com extrema pressão na saída de bola e marcação alta ao sistema defensivo rubro-negro, o qual tinha dificuldades de sair categoricamente para o meio-campo e era sucumbido pela entrega física e tática ‘hermana’.

Desta maneira, o River forçou os erros e a ansiedade de todo o time do Fla para abrir o marcador na final. Aos 14 minutos, o lateral esquerdo Felipe Luís cochilou na defesa e a bola, sempre com a sobra nos pés do River Plate, caiu livre para Matías Suárez pela direita do ataque. Rápido, o atacante avançou e fez cruzamento rasante para o meio da grande aérea buscando Borré para a conclusão. Com falhas na reposição de Willian Arão e Gerson, que não conseguiram interceptar o lance, a pelota ficou redondinha para Borré, o qual arrematou rasteiro no contrapé de Diego Alves e levou os torcedores do River à loucura: 1 a 0. O gol logo no início fez muito bem ao psicológico do River Plate e consequentemente mal ao time do Flamengo, que seguia abusando nos erros de passes e pouca conexão ofensiva entre Bruno Henrique e Gabigol. Friamente e colocando em prática a experiência de finais da Libertadores dos últimos anos, o River era objetivo e chegava em segundos a cada tentativa de ataque contra o sistema defensivo do Fla. Sem medo de arriscar e se sentindo à vontade, o River Plate quase ampliou o escore com o meio-campista Palacios. Em belo arremate de fora da aérea, a pelota tirou tinta da trave direita de Diego Alves e deixava exposta à superioridade tática e técnica dos argentinos no primeiro tempo.

Borré abriu o marcador para o River no primeiro tempo. Foto: River Plate

Pouco efetivo, o Flamengo tentou levar perigo ao River Plate em duas cobranças de faltas pelos lados em jogadas ensaiadas, mas o River também estava atento e equilibrado em seu sistema de defesa, principalmente com o zagueiro e capitão Pinolla. O River persistia incomodando o time brasileiro sem dar nenhuma brecha, principalmente com bela atuação do volante Enzo Pérez, e buscava o segundo gol para tentar levar vantagem maior para a etapa complementar. Enquanto o Flamengo, por sua vez, passava a se segurar visando o fim do primeiro para buscar melhorar a conversa e planejar uma estratégia melhor no vestiário almejando o empate e a virada na etapa complementar. Na volta para o segundo tempo, o Flamengo esboçou inicialmente que iria mudar o seu comportamento em busca do primeiro gol. O primeiro lance ofensivo do Fla na segunda etapa saiu dos pés do artilheiro da competição, Gabigol, que finalizou de pé esquerdo para a intervenção de Armani. Mais presente no ataque em relação ao primeiro tempo, o Flamengo tentava encontrar mais espaços suficientes para empatar o intenso duelo com o River, que passava abdicar da posse de bola e apenas executava um posicionamento mais reativo no confronto.

A melhor oportunidade do Flamengo para deixar o placar tudo igual em Lima teve participação do quarteto ofensivo. Após escapada veloz de Bruno Henrique pelo flanco esquerdo do ataque, o atacante flamenguista tocou para Arrascaeta na pequena área, que furou o chute. Na sequência, a bola caiu nos pés de Gabigol ainda na pequena área, mas o goleador rubro-negro finalizou na zaga argentina. No rebote e livre de marcação, Éverton Ribeiro arrematou de qualquer jeito com o pé direito, no entanto, a defesa do River conseguiu novamente bloquear a investida brasileira e se manteve à frente no escore. A jogada, apesar de não aproveitada, animou e deu uma confiança maior ao Flamengo no jogo, que precisava de mais poderio ofensivo para tentar superar a implacável marcação naquele instante do River Plate. Mesmo abaixo na posse de bola, com 62% para o Flamengo contra 38% dos Millonarios, o River era perfeito na troca de passes e quando chegava ao ataque, obrigava ao Fla ter atenção redobrada para não correr o risco de sofrer o segundo tento e ver a situação ficar irreversível.

Flamengo desperdiça grande oportunidade na etapa complementar.
Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

Preocupado na aérea técnica, Jorge Jesus teve outra preocupação e perdeu os volantes Gerson e Willian Arão, lesionados. Assim sendo, o treinador português foi ousado e optou pelas entradas de Diego e Vitinho, deixando o Flamengo mais ofensivo e, ao mesmo tempo, exposto defensivamente. Por outro lado, o técnico Marcelo Gallardo, de olho nas alterações do treinador europeu, também modificou o seu time e impôs as entradas de Lucas Pratto, Álvarez e Díaz, nas vagas de Ignacio Fernández, Borré e Casco. Com as mexidas, o River tentava ‘matar’ o jogo, sobretudo explorando a velocidade e o oportunismo de Lucas Pratto, esse velho conhecido dos torcedores brasileiros. Em dois arremates, Pratto tentou superar Diego Alves, mas nenhum deles foi no alvo. O tempo passava e a torcida do Flamengo ficava cada vez mais apreensiva nas arquibancadas com o time buscando a todo cusco acertar com precisão o barbante adversário. Aos 44 minutos, tudo começou a mudar e o que parecia terminar em frustração ao Flamengo, uma luz no fim do túnel apareceu diante do então atual campeão da Libertadores.

Gabigol decide novamente

O empate do Flamengo em momento de super pressão iniciou após um desarme magnífico do uruguaio Arrascaeta, no meio de campo, que roubou a bola do seu oponente e acionou rapidamente Bruno Henrique pela esquerda da grande área. Em velocidade e fazendo valer à sua qualidade técnica, o mineiro construiu toda a jogada e devolveu a bola inteligentemente para Arrascaeta, o qual acompanhou todo o lance até a grande área. Esperto, o uruguaio cruzou a bola rasteiro buscando Gabigol que, livre, teve apenas o trabalho de completar para as redes e empatar o jogo: 1 a 1. Festa da torcida do Flamengo nas arquibancadas e em grande parte do Brasil.

O primeiro tento rubro-negro levaria naquele momento a decisão pela taça para a prorrogação, mas o Flamengo ganhou confiança e acreditava ainda no desempate restando poucos minutos para o fim. Depois de bola alçada por Diego ao sistema defensivo argentino, Gabigol, novamente incomodando os zagueiros do River, aproveitou falha crucial de Pinolla e que não havia acontecido durante grande parte do embate, para fazer o segundo gol com o seu pé canhoto calibrado e do bicampeonato do Flamengo da Libertadores. Esse foi o nono gol de Gabigol na competição e ele termina o torneio como artilheiro isolado da competição. Ainda teve tempo, antes do apito final, de Palacios, do River, que agrediu Bruno Henrique e Gabigol, o qual tomou as dores do seu companheiro, serem expulsos. A festa acabou sendo rubro-negra e a frustração terminou com o River Plate, sendo esse o 16º título de um clube brasileiro contra uma equipe argentina, em 35 finais da Libertadores entre os dois países na história.