Paulo Isidoro: “O segurança do Mineirão mostrou que não é pela cor que mostramos dignidade e respeito”

Em entrevista exclusiva ao Portal Futebol Diário, ex-jogador histórico de Atlético, Cruzeiro e Seleção lamenta profundamente acontecidos após o clássico, cobra dos órgãos e ainda critica a partida

Paulo Isidoro atuou em Atlético e Cruzeiro. Foto: Portal Futebol Diário

Do Portal Futebol Diário, em Belo Horizonte

Marco Túlio Souto

Invasão de setor, quebra de cadeiras, bombas de efeito moral, gás de pimenta e uma verdadeira ‘praça de guerra’. Assim terminou o último clássico e sem empolgação em campo entre Cruzeiro e Atlético, que empataram em 0 a 0, no último domingo, no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro. Porém, o confronto fora das quatro linhas ficou ainda mais manchado depois do jogo com uma grave consequência durante a briga generalizada entre torcedores rivais e que terminou em racismo. Um torcedor do Atlético, completamente exaltado, foi flagrado cometendo injúria racial a um segurança negro do estádio que buscava apartar de maneira tranquila o vexame nas arquibancadas do Gigante da Pampulha. Foi quando esse torcedor disse: “você tocou em mim, olha a sua cor”. Em seguida, o segurança respondeu: “você é racista?”. O vídeo registrado e divulgado na internet viralizou e traz bastante revolta de torcedores de Cruzeiro e Atlético, atletas dos dois clubes e também de um ex-jogador histórico que vestiu a camisa de Galo, Raposa e Seleção Brasileira.

Em entrevista exclusiva ao Portal Futebol Diário, Paulo Isidoro lamenta mais um ato de racismo acontecido no futebol brasileiro e cobra justiça em casos como este. “Chega dessa baderna. Se não tiver uma punição mais severa a esses indivíduos, os casos de racismo nos estádios vão continuar acontecendo como houve no Mineirão. Não sei qual a diferença que pode ter na minha pele que é negra e na pele do outro que é branca. Por que o branco pode achar que o preto é inferior a ele? Qual desvalorização tem nisso? Ou seja, a impunidade é que está deixando acontecer isso sempre. Estamos em um país onde as pessoas que se colocam no direito de fazer esse tipo de julgamento também são corruptas. Falta punição por parte das entidades, que seria banir essas pessoas dos estádios, porque se tais medidas fossem impostas essas cenas tristes poderiam acabar. É preciso que os órgãos competentes hajam com mais vigor. Acho que o segurança do Mineirão foi muito educado e mostrou ser uma pessoa muito civilizada. Queria um dia olhar na cara desse homem (torcedor do Atlético) e perguntar a ele se não tem vergonha porque o segurança o respeitou. O segurança mostrou que não é pela cor que mostramos dignidade e respeito pelas outras pessoas”, desabafa Isidoro.

Historicamente, os casos de racismo no futebol não acontecem somente dentro de campo, seja de um jogador para o outro – mas também do torcedor ao jogador, de torcedor para o próprio torcedor ou do torcedor a um funcionário da organização de uma partida, como aconteceu no clássico entre Cruzeiro e Atlético, pela 32ª rodada do Brasileirão 2019. Atualmente aos 66 anos, o ex-meio campista Paulo Isidoro, revelado nas categorias de base do Atlético, campeão Mineiro pelo Galo, Brasileiro pelo Grêmio, Paulista pelo Santos e além de passagem pela Raposa, revela que felizmente nunca foi alvo de racismo. “Graças a Deus nunca passei por isso porque sempre ando de cabeça erguida, mas também não sei qual seria a minha reação caso aconteça um dia. Essas pessoas vão ao estádio para brigar. Na minha época, se jogasse com 100 mil torcedores de Atlético e Cruzeiro no Mineirão, não tinha essas confusões como têm atualmente com 10% de uma torcida e a maioria da outra. É lamentável. O vandalismo está presente no nosso país e no mundo de todas as maneiras. E digo mais, a polícia infelizmente não pôde agir da maneira que ela deveria agir com essa pessoa. Há culpa também na fiscalização do estádio, que deixa torcedor entrar com garrafa de bebida alcoólica e, consequentemente, a probabilidade de confusão após o jogo é maior. Quem precisa tomar providência nunca toma. Precisamos colocar tolerância dois e não zero, assim, as coisas vão mudar na sociedade e no futebol. Enquanto o torcedor rival não reconhecer um dia que o adversário venceu, jogou melhor e aplaudi-lo, nada também tende a mudar”, contesta.

Precisamos colocar tolerância dois e não zero, assim, as coisas vão mudar na sociedade e no futebol

De acordo com a Polícia Militar, mais de 50 pessoas foram presas depois da confusão no Mineirão. A Minas Arena, concessionária que administra o estádio, afirma que faltaram 100 profissionais de segurança, mas garante que os confrontos não tiveram relação com o número de profissionais que trabalharam na partida. Em notas oficiais, Atlético e Cruzeiro se pronunciaram e lamentaram as cenas de brigas, vandalismo e racismo. Para Paulo Isidoro, se fora de campo as cenas foram tristes e constrangedoras, dentro dele também deixou a desejar. “Nosso futebol em Minas Gerais caiu muito neste ano na qualidade técnica e o clássico empatado sem gols tem reflexo disso. Faltou brilho nesse último clássico de 2019, como muitos dribles, lances bonitos e maior inspiração. Vimos uma partida sem graça, sem nenhuma criatividade e equipes cansadas, com jogadores que reclamam cansaço por jogar quarta e domingo, algo também que não dá para entender no futebol atual”, conclui.